Uma ferramenta nova chega por um grupo de professores no WhatsApp. Promete corrigir redações, gerar planos de aula ou criar atividades em segundos. Antes de testar com a turma, vale passar por cinco perguntas. Nenhuma exige conhecimento técnico.

1. Qual objetivo de aprendizagem a ferramenta serve?

Se não for possível dizer, em uma frase, o que o estudante vai aprender de diferente com o recurso, o motivo da adoção é a novidade, e isso não basta. Comece pelo objetivo, isto é, pela habilidade ou competência que se quer desenvolver, e só depois pergunte se a ferramenta ajuda.

2. Que dados dos estudantes entram nela?

Nome, texto escrito, voz, imagem, histórico de respostas: tudo isso são dados pessoais. A Lei Geral de Proteção de Dados determina que o tratamento de dados de crianças e adolescentes seja feito em seu melhor interesse (BRASIL, 2018). Na prática, leia a política de privacidade procurando três informações: para que os dados são usados, por quanto tempo ficam guardados e se podem servir para treinar modelos.1

Quando a resposta não está clara, a opção mais segura é não inserir dados identificáveis, como nomes e trabalhos completos de estudantes.

3. Como o resultado será verificado?

Ferramentas de IA generativa produzem texto fluente, e fluência não garante correção. Informações inventadas podem aparecer no mesmo tom das corretas. Se a ferramenta sugere uma atividade, uma explicação ou uma correção, alguém precisa conferir antes que chegue ao estudante. Planeje essa conferência como parte da tarefa, com tempo reservado, e não como uma etapa opcional.

4. O que o estudante deixa de fazer?

Toda tarefa delegada à ferramenta é uma tarefa que o estudante não pratica. Às vezes isso é desejável: ninguém precisa treinar a digitação de uma tabela. Outras vezes, o que se delega é justamente o exercício que a atividade existe para provocar, como organizar ideias, argumentar ou resumir. Pergunte qual processo a tarefa quer desenvolver e se ele continua nas mãos do estudante.

5. Quem decide e quem responde?

A responsabilidade pedagógica continua sendo do professor e da escola. Isso pede que a escola tenha uma orientação por escrito sobre o que pode e o que não pode ser usado, e que as famílias saibam quais ferramentas entram na rotina da turma. Decidir sozinho, sem registro, deixa o professor exposto se algo der errado.

Quando as respostas não aparecem

Se três ou mais perguntas ficarem sem resposta, o melhor passo é um teste pequeno: entre adultos, com textos fictícios, sem dados reais de estudantes. O teste mostra o que a ferramenta faz bem, onde ela erra e quanto trabalho de revisão exige. Só então vale decidir se ela entra na sala de aula.

Referências

  • BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 ago. 2018.

Notas

  1. Muitos serviços gratuitos se reservam o direito de usar o conteúdo enviado para melhorar seus produtos. A política de privacidade costuma tratar disso em uma seção sobre o uso dos dados. Leia também a versão original, se houver, pois a tradução pode estar desatualizada. ↩

Como citar este texto (ABNT)

PEREIRA, Geovanildo Martins. Cinco perguntas antes de levar uma ferramenta de IA para a sala de aula. Didática Digital, Natal, 5 out. 2026. Disponível em: <https://didaticadigital.com/artigos/cinco-perguntas-antes-de-usar-ia-em-sala/>. Acesso em: data da consulta.

Geovanildo Martins Pereira

Educador e desenvolvedor de tecnologia educacional

Licenciado em Informática pelo IFRN, em Natal (RN). Pesquisa letramento digital no ensino fundamental e desenvolve a plataforma BRAIN, ferramenta de gestão educacional com inteligência artificial para escolas brasileiras. Mais sobre o blog.