Quando se fala em tecnologia na escola, a conversa costuma começar pelo equipamento: quantos computadores há no laboratório, qual é a velocidade da internet, se o tablet chegou. Esses pontos importam, mas a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) faz outra pergunta. Em vez de listar o que a escola tem, ela descreve o que o estudante deve ser capaz de fazer.

Uma competência, não uma disciplina

A quinta competência geral da BNCC trata da cultura digital. Ela pede que o estudante compreenda, utilize e crie tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética, em práticas sociais que incluem as escolares (BRASIL, 2018).

Três verbos organizam a competência: compreender, utilizar e criar. Uma escola que ensina apenas a utilizar, isto é, a abrir o editor de texto ou a montar uma apresentação, cumpre uma parte do que o documento propõe. Compreender envolve saber como a informação circula, quem a produz e com que interesse. Criar envolve autoria: produzir texto, imagem, vídeo ou programa, em vez de só consumir.

Onde isso aparece no currículo

A BNCC não reserva um componente curricular para o tema. A cultura digital atravessa as áreas. Em Língua Portuguesa, aparece nas práticas de leitura e de produção de textos em meio digital. Na Matemática, aparece em atividades com algoritmos e fluxogramas. Nas demais áreas, surge sempre que pesquisar, comunicar ou produzir conhecimento exige alguma ferramenta digital.

No plano nacional, a Política Nacional de Educação Digital reforça esse caminho. Instituída pela Lei nº 14.533/2023, ela inclui a educação digital escolar entre os seus eixos (BRASIL, 2023).

Três perguntas para cada unidade de ensino

Na prática, a competência se torna útil quando entra no planejamento como pergunta. Para cada unidade, vale responder por escrito:

  1. O que os estudantes vão compreender sobre o meio digital que usarem? Por exemplo, como avaliar se uma fonte é confiável.
  2. O que vão utilizar? Quais ferramentas, e com qual finalidade pedagógica.
  3. O que vão criar? Qual produto terá a autoria deles, e para quem.

Imagine uma turma de 7º ano que pesquisa a história do próprio bairro. Para compreender, os estudantes comparam o que dizem três fontes diferentes sobre o mesmo fato. Para utilizar, recorrem a buscadores, mapas digitais e uma planilha que organiza as fontes. Para criar, produzem um podcast ou um mural digital, com as referências citadas.

O cuidado com a palavra digital

Letramento digital não é sinônimo de uso de aparelhos. Freire (1996) sustenta que ensinar não é transferir conhecimento, e sim criar as possibilidades para que o estudante o construa. Aplicada à tecnologia, a ideia vale como critério: uma atividade digital que apenas entrega conteúdo pronto, com a tela no lugar do quadro, mantém o mesmo modelo de transferência.

Se, ao final da unidade, os estudantes só consumiram, a competência não foi trabalhada, por mais moderna que a aula tenha parecido.

Referências

  • BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
  • BRASIL. Lei nº 14.533, de 11 de janeiro de 2023. Institui a Política Nacional de Educação Digital e altera as Leis […]. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 jan. 2023.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

Como citar este texto (ABNT)

PEREIRA, Geovanildo Martins. O que a BNCC chama de cultura digital e o que isso pede da escola. Didática Digital, Natal, 12 out. 2026. Disponível em: <https://didaticadigital.com/artigos/cultura-digital-na-bncc/>. Acesso em: data da consulta.

Geovanildo Martins Pereira

Educador e desenvolvedor de tecnologia educacional

Licenciado em Informática pelo IFRN, em Natal (RN). Pesquisa letramento digital no ensino fundamental e desenvolve a plataforma BRAIN, ferramenta de gestão educacional com inteligência artificial para escolas brasileiras. Mais sobre o blog.